O recente acordo comercial entre o Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) e a União Europeia (UE), um dos tratados mais amplos de livre comércio, está gerando debates intensos em todo o mundo, especialmente no agronegócio. Após mais de 25 anos de negociações, o acordo foi concluído, abrindo perspectivas inéditas de integração entre dois grandes blocos econômicos.

O que o acordo prevê

O texto aprovado prevê a eliminação ou drástica redução de tarifas sobre a maioria dos produtos comercializados entre o Mercosul e a UE, com prazos escalonados de 10 a 15 anos. Isso significa que produtos agrícolas brasileiros como frutas, café, carnes e etanol terão acesso facilitado ao mercado europeu. O presidente brasileiro afirmou que isso coloca o país “no centro de um dos maiores mercados globais”, destacando a importância do agronegócio nacional para o comércio internacional.
A UE também argumenta que o acordo pode impulsionar suas exportações de produtos com alto valor agregado, como queijos, vinhos e bebidas, ao aumentar o acesso ao mercado sul-americano.

Ampliação de mercado
O principal benefício esperado é a expansão do acesso a produtos agrícolas brasileiros a um mercado de mais de 400 milhões de consumidores com alto poder aquisitivo. Isso pode significar crescimento das exportações e maior estabilidade de receitas para produtores grandes e exportadores.

Redução de barreiras comerciais
Com tarifas menores ou eliminadas, produtos brasileiros tendem a se tornar mais competitivos no mercado europeu, especialmente em commodities agrícolas em que o Brasil já é forte, como soja e carnes.

Maior previsibilidade
A formalização de um tratado de livre comércio cria um ambiente de maior previsibilidade para as empresas que desejam planejar investimentos e estratégias de longo prazo no exterior. Esse tipo de segurança jurídica é importante para quem exporta.

Pontos negativos e controvérsias

Protestos e receios de produtores
Apesar dos benefícios potenciais, parte significativa do setor agrícola especialmente na Europa reagiu com protestos e resistência. Agricultores europeus temem que produtos sul-americanos produzidos sob custos menores e com regulamentações ambientais e sanitárias menos rígidas gerem concorrência desleal em seus mercados.

Impactos sobre padrões ambientais e sociais
Organizações ambientais e entidades de defesa de direitos humanos alertam que o acordo pode agravar problemas como desmatamento, emissões de carbono e desigualdade em comunidades rurais. Um ponto crítico é a diferença de padrões regulatórios entre os blocos, especialmente em relação ao uso de defensivos, proteção ambiental e direitos trabalhistas.

Pressão sobre pequenos produtores
Além disso, tanto em países europeus quanto nos países do Mercosul, produtores menores e tradicionalmente menos competitivos podem sofrer com a intensificação da competição. Isso pode levar à concentração de renda e à marginalização de cadeias mais sustentáveis e de pequena escala.

O papel dos mecanismos de proteção
O texto do acordo prevê salvaguardas e mecanismos para que, em caso de aumento excessivo de importações que danifique produtores locais, as tarifas preferenciais possam ser temporariamente suspensas. Recentemente, parlamentares europeus endossaram regras para proteger setores agrícolas sensíveis, como aves e carnes, podendo interromper as preferências tarifárias caso o fluxo de importações cause prejuízos substanciais.

Impactos no marketing do setor agro

O acordo traz desafios e oportunidades para o marketing no agronegócio:

1. Comunicação de valor agregado
Produtores brasileiros terão de reforçar, junto ao mercado externo, o valor agregado de seus produtos, mostrando não só preço competitivo, mas certificações, rastreabilidade, conformidade sanitária e atributos de qualidade.

2. Posicionamento de marca global
Empresas que conseguirem comunicar seus diferenciais em termos de sustentabilidade, segurança alimentar e padrão de qualidade terão vantagem competitiva frente à concorrência internacional.

3. Educação do consumidor
Em mercados como a UE, onde consumidores valorizam padrões ambientais e sociais, será essencial que as marcas agro brasileiras eduquem o público sobre seus processos produtivos e práticas sustentáveis, um trabalho que envolve conteúdo técnico e storytelling estratégico.

4. Gestão de reputação
O tratamento das narrativas em torno de temas sensíveis como desmatamento ou uso de defensivos químicos e biológicos será crucial. O marketing terá papel direto não apenas em vender produto, mas em fortalecer reputação institucional para evitar resistências e barreiras não tarifárias.

O acordo Mercosul-UE representa um marco comercial histórico que pode abrir portas significativas para o agronegócio brasileiro, ao mesmo tempo que expõe fragilidades estruturais do setor e desafios regulatórios.
Os impactos positivos, maior acesso a mercados, redução de tarifas e previsibilidade comercial são reais, mas devem ser acompanhados de estratégias de marketing sofisticadas e transparentes, capazes de defender os interesses dos produtores e comunicar valor de maneira eficaz.

Ao mesmo tempo, é importante reconhecer os riscos apontados por produtores europeus e grupos ambientais, pois eles indicam que qualquer estratégia de expansão comercial precisa integrar sustentabilidade, governança e responsabilidade social ou corre o risco de perder mercado não por preço, mas por percepção pública e regulatória.